Grupo Corpo
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Quando se vê o GRUPO CORPO dançando, é como se as questões do trânsito entre a natureza e a cultura estivessem sendo bem respondidas. São os diversos Brasis, o passado e o futuro, o erudito e o popular, a herança estrangeira e a cor local, o urbano e o suburbano, tudo ao mesmo tempo sendo resolvido como arte. Arte brasileira. Arte do mundo.

Helena Katz

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Foto - paulo pederneiras

paulo pederneiras

“O Grupo Corpo não tem nome de ninguém: é como grupo que conseguimos ter uma identidade”. De fato: dança, música, luz, figurino, cenário, tudo se integra nas criações do Corpo. Mas alguém precisa reger o conjunto – tarefa que sempre coube a Paulo Pederneiras.

Diretor geral e artístico da companhia, fundada por sua iniciativa em 1975, Paulo é também o responsável pela luz dos espetáculos e desde Bach [1996] participa da criação dos cenários. Uma luz com presença forte, que tanto ilumina quanto serve de espaço para a dança: “Eu penso o espaço do mesmo jeito que penso a luz. Às vezes a luz é o espaço”. Como em O Corpo, onde a distinção entre cenário e luz virtualmente desaparece e os bailarinos dançam na cor vermelha. Ou em 21, onde um canhão de luz serve de túnel móvel para um bloco de corpos. Ou em Sete ou Oito, onde cada bailarino, na última cena, se individualiza numa coluna vertical de cor. Ou em tantos outros momentos onde a luz, ela mesma, parece reger o contraponto de corpos no palco, que ela faz ver e entender.

Ver e entender: mas o entendimento, para Paulo, é um nome pobre para o não saber as coisas, um compromisso com o espanto, ou reticência, que está no centro de qualquer nova obra. Isso vai desde a imaginação do espetáculo em si até as formas de trabalhar em equipe: “Questionar o próprio trabalho é fundamental. É sempre um risco, mas um risco produtivo. Tentar ver o que se tem e tentar desfazer ou desestruturar a própria metodologia. A arte tem que ter isso, ou não se dá nenhum passo à frente. Tem que ter isso, ou será uma arte desonesta”.

Desde sua fundação, o Grupo Corpo vem lidando com esses dilemas, que envolvem não só o aprendizado e domínio de uma linguagem, mas também a manutenção administrativa da companhia. Buscar apoio e sustentar seu trabalho, sem compromisso, ao longo desses mais de 25 anos, tem sido uma marca do Grupo, cuja atuação hoje se estende pelo mundo afora (da Oceania às Américas, do Oriente Médio à Europa).

Além de seu trabalho com o Grupo Corpo, Paulo já criou a luz para várias montagens de ópera: Don Giovanni, Suor Angelica, Lucia de Lammermoor, La Voix Humaine, Salomé e Orfeo, entre outras. Tem trabalhado também na cenografia de exposições, como a da seção “Arte Indígena e Antropológica” da Mostra Brasil 500 Anos, na “Oca” (Parque Ibirapuera, São Paulo, 2000).

“Uma companhia brasileira tem grande diversidade física. Ninguém se movimenta igual a ninguém, nem por isso se perde a ideia de conjunto. É aí que a dança ganha força.” Suas palavras descrevem o que se dá nos corpos, mas servem igualmente para descrever o Corpo. Sob a direção de Paulo, o Grupo soube fazer das suas diversidades uma virtude. E segue fazendo dessa virtude o princípio de criação: uma forma de saber e não saber, uma aposta no desconhecido, para chegar a uma dança sempre nova, sempre sua.

Foto - rodrigo pederneiras

rodrigo pederneiras

“Foi só em 1988, ao trabalhar em Uakti, que comecei a pensar no que seria fazer uma dança mais dentro do nosso corpo”. As palavras de Rodrigo definem um momento crucial não só de sua carreira, mas do próprio Grupo Corpo. Seu trabalho, de lá para cá, pode ser visto como uma exploração variada dessa “dança dentro do nosso corpo” – que é a dança do Corpo.

O “nosso corpo” aprendeu a dançar na rua e a linguagem de Rodrigo, essencialmente moderna, abriga, a seu modo, o xaxado, o samba, as danças de salão, as festas, a capoeira. Tudo traduzido para um mundo particular, onde dinâmicas e desequilíbrios contam mais até do que as linhas do movimento. Tudo com uma certa alegria e um certo bom humor, que nem por ser alegre e bem-humorado esconde as violências e ambiguidades da nossa condição. Guiado sempre pela música, Rodrigo quebra os movimentos clássicos de um modo intensamente brasileiro, mas inteiramente livre de exotismos, ufanismos, identidades fáceis.

Imagem característica: um ou mais bailarinos se desagregram de um núcleo concentrado, como se impelidos por uma força maior. O grupo então se reorganiza, até a pressão do próximo impulso. São raros os círculos nessas coreografias. O palco é construído como um ponto central e uma frente bem definida. As linhas são o resultado do deslocamento dos bailarinos e vão sendo construídas, sem forma preestabelecida, desde o primeiro momento da criação.

Coreógrafo do Corpo desde 1978, Rodrigo tem seu trabalho hoje reconhecido nacional e internacionalmente. Já coreografou para o Balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Balé do Teatro Guaíra, o Balé da Cidade de São Paulo e a Companhia de Dança de Minas Gerais. Fora do Brasil: Companhia da Deutsche Oper Berlin (Alemanha), Gulbenkian (Portugal), Les Ballets Jazz de Montréal (Canadá), Stadttheater Saint Gallen (Suíça) e Opéra du Rhin (França).

Criar para o Corpo, no entanto, continua sendo seu principal interesse. “O Corpo hoje tem uma linguagem própria, o que é difícil de alcançar.” O que não significa maior facilidade, pelo contrário: “Posso errar mil vezes na montagem, até encontrar o que quero. Algo que no trabalho com outras companhias simplesmente não é possível, pelas pressões de tempo.” Criação é angústia, quase por definição; mas o apoio das assistentes de coreografia, Carmen Purri e Miriam Pederneiras, minimiza o esforço de ver a dança nascendo aos poucos em cena. Os bailarinos do Corpo aprendem com elas o que é esse nosso corpo imaginado por Rodrigo e durante a montagem são como instrumentos afinados, prontos para tocar.

Se o Corpo tem uma linguagem própria, hoje, ela é a língua de Rodrigo: um sotaque inconfundível, que é só dele, mas que todo mundo entende, porque é o nosso corpo, afinal, que ele faz dançar.

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