Tradução poética da violência e da barbárie dos dias que vivemos, Breu, balé criado em 2007, é uma demolidora partitura de movimentos escrita por Rodrigo Pederneiras. Para expressar em movimentos a densa e lancinante trilha sonora criada por Lenine, coreógrafo e bailarinos partiram para a formulação de novos códigos de movimento, repletos de angulosidade e a rispidez.
A brusquidão das quedas e uma penosa morosidade nas subidas parece puxar os bailarinos para o chão, movendo-se com o auxílio da pélvis, dos pulsos, dos cotovelos, dos joelhos, dos tornozelos, dos calcanhares. Para manter-se de pé ou ficar por cima, é preciso ignorar o outro e encará-lo como inimigo. O individualismo, o triunfo a qualquer preço e a disposição para o confronto como estratégia de sobrevivência parecem reger os quarenta minutos de espetáculo.
A música original de Lenine combina uma vasta gama de timbres, samplers, efeitos, citações e estilos, na construção de uma instigante babel sonora. A peça tem oito movimentos que vão do hard rock aos gêneros populares e tradicionais brasileiros. Paulo Pederneiras emoldura o espaço cênico com grandes placas negras e brilhantes, dispostas lado a lado com precisão, remetendo à frieza das superfícies azulejadas. De malhas inteiriças e todo em preto e branco, os figurinos criados por Freusa Zechmeister dividem ao meio o corpo dos bailarinos: na região frontal, predominam as estampas geométricas variadas; as costas ganham, de alto a baixo, um negro intenso. Sob a incidência da luz, o brilho das malhas destaca as formas fazendo com que, aqui e ali, os bailarinos se misturem ao cenário, emprestando volume e sinuosidade à estética retilínea e bidimensional.